segunda-feira, 14 de abril de 2014

Você não vai arrumar um namorado?

 
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As minhas amigas insistem que já passou da hora de eu encontrar alguém. Sempre que encontro com minha tia, meus avós, ou qualquer um que saiba da minha vida, a fala é sempre a mesma: 

_ Já encontrou um namorado? Não é bom ficar sozinha. Quando é que você vai se casar de novo?

Não é que eu não queira encontrar alguém, eu quero! Mas não é só para não morrer no frio da solidão ou para ter um macho que me defenda. Se assim fosse, teria continuado casada com o anterior, mas entre ficar acompanhada por um alienígena macho ou ficar sozinha, eu preferi a solidão.

Para começar, eu não tinha nenhuma vantagem quando estava casada. Eu limpava a casa, trabalhava, cuidava do filho, saía para fazer as compras e pagar as contas, tudo o que faço hoje, mas além disso, tinha que fazer o papel de esposa. Fazer papel de esposa significava fazer as coisas das quais ele gostava, estar bonita, sair pra onde ele quisesse, ver o que ele quisesse na televisão, não poder sair quando eu desejasse e ainda por cima ter que cumprir com as obrigações sexuais, que infelizmente eram obrigações para mim. Que vantagem eu teria em ficar casada se aprendi a matar as minhas próprias baratas e a trocar o meu botijão de gás? Sai fora, maluco!

Solteira eu me sinto livre. Não tenho que ficar tensa com a chegada de alguém, ou ficar me depilando, ou me preocupar em ir embora de algum lugar correndo por que tenho que cozinhar para o marido. Se quero viajar, apenas pego minhas coisas, meu menino e vou. Se não quero fazer nada, não faço nada.

Porém, eu sou uma pessoa romântica, apesar de meu militarismo feminista. Nem eu mesma entendo que teoria sigo. O fato é que tive um casamento ruim, uma experiência de relacionamento que não cumpria o mínimo de exigências para qualquer relacionamento. Eu não tinha um amigo, um parceiro, um amante, eu tinha apenas um marido. Eu não tinha alguém com quem sentisse prazer em ver um filme, em sair andando, jogando conversa fora, dando risadas, e combinando que não haveria janta naquele dia, mas uma pizza bem grande. Eu não tinha prazeres. E é desse casamento que eu não quero mais falar. Quero um casamento sim, mas quero encontrar alguém com quem eu me sinta livre, me sinta eu mesma, Berenice Cavalcante. E hei de encontrar!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

4 - Pagamento de língua


A vida é muito louca, quando pensamos que tudo está indo para um caminho e as coisas estão se definindo, vem um capoeira e lhe dá uma rasteira que você fica a ver estrelas e sem rumo. O que você é agora e o que você pensa que será daqui há alguns anos talvez nunca se encontrarão, mas seria isso, o destino? Eu não sei. Hoje eu estava me lembrando de quando eu me engravidei, estava no segundo ano do ensino médio. Eu tinha uma grande amiga na época, mas ela guardava consigo alguns preconceitos. Ela tinha noção de que aqueles sentimentos não eram bem vistos, questionava a si mesma, mas não podia evitá-los. A minha amiga não se atraía muito por negros, ou talvez se atraísse, mas sentia que aquilo era errado. Ela dizia que se casaria, mas nunca teria filhos. Esse era o mundo dela. Um dia eu engravidei e deixei a escola. Depois que meu filho nasceu, minha mãe me ajudou e eu voltei a estudar, ela estava no último ano. Nós nos encontramos no corredor, ela disse que eu era  louca por ter engravidado e todo aquele "blablabla", e, de repente, suas novas colegas chegaram e começaram a falar sobre a formatura. Eu fiquei sorrindo para o nada, elas fizeram uma rodinha onde eu era o elemento fora do conjunto união. O meu sorriso se amarelou e percebi que não pertencia mais ao mundo das adolescentes com festas para planejar, eu era uma mulher casada e com filhos. Saí dali e ninguém percebeu.

Não se sintam tristes, minhas amigas. Eu fiquei chateada no momento, mas o destino respondeu à altura. Passado um tempo, essa amiga engravidou, o namorado sumiu, ela virou mãe solteira de um filho negro. Agora ela não me ignora e nem eu a ela, somos apenas colegas nessa vida louca, que se cumprimentam e trocam algumas palavras quando têm oportunidade.

Eu também nunca pensei que fosse me separar e enfrentar todas as lutas sozinha com o meu filho, mas cá estou, resistindo bravamente. Essa é a vida, queridos. Como diria a minha avó, cuidado para não pagar a língua, e pagamento de língua é o que mais vemos nesse mundo, com muitos juros e correções! Por isso, é melhor calar-me, e que venga el destino!


sexta-feira, 4 de abril de 2014

3 - As flores amarelas

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As minhas amigas estavam preocupadas com a minha tristeza e me disseram que a vida solitária de uma mulher deve ter suas compensações. Eu pensei bem e vi que nada é perfeito e tudo tem sempre o seu lado positivo. Hoje eu me levantei e tentei encarar as coisas com outros olhos e com esperança no futuro. Fui trabalhar e vi algumas doninhas pela rua com os seus cestinhos, algumas traziam frutas da época, outras carregavam algumas folhas e umas se arriscavam a vender flores do campo. O meu coração doeu em ver que ainda nos dias de hoje existem famílias que vivem em lugares distantes, plantando, usando fogão a lenha, acordando de madrugada para trazer sua mercadoria para a cidade e ganhar algum dinheirinho. Flores! Quem compra flores nos dias de hoje? Quem tem tempo para comprar flores e as levar para casa, encher um jarro com água, colocá-las dentro e deixá-las  enfeitando a casa para os ácaros. Mas era o que elas tinham para vender. Olhei para as mãos morenas e grossas daquela mulher baixinha, mais do que eu, de cabelos desalinhados e meio grisalhos, presos em um coque mal feito, de roupas gastas, e imaginei se ela era feliz. Parecia feliz se alguém parasse e lhe desse atenção, parecia feliz em estar viva, orgulhosa de trabalhar e ganhar o seu dinheiro. Acho que ela era feliz. Vou comprar flores desta mulher! Pensei. 

_ Quanto são essas amarelinhas? 
_ Essas estão cinco reais a dúzia.
_ Eu quero duas dúzias.
A doninha separou as flores como se tivesse todo o tempo do mundo, sempre sorridente, como se estivesse fazendo um excelente negócio.
_ Essas são ótimas pra melhorar o ambiente.

Estou mesmo precisando melhorar o ambiente, pensei com meus botões.

_ Obrigada! 
_ De nada, vai com Deus e Nossa Senhora! Deus lhe pague.

No consultório, coloquei-as dentro de uma vasilha com água para que não murchassem. À tarde fui pegar o Caio, quando ele viu aquelas flores amarelas, seus olhos se arregalaram e seu sorriso se abriu imediatamente: _ Que lindo, mãe!
_ Gostou?
_ Uhum, legal!
_ É pra animar o ambiente.

Em casa, dentro de um jarro antigo, as flores diziam que havia vida alí. Jantamos e assistimos a uma comédia, rimos bastante e dormimos na mesma cama, abraçadinhos. Eu e o Caio, num dia em que eu não me lembrei do meu passado e nem de que precisava de um amor pra ser feliz. Simplesmente fui.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

2 - A apaixonada do dentista

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Não era feriado, eu tinha que me levantar e ir para o trabalho enfrentar o dia dos namorados. Era muito cedo, como sempre, 6:30 da manhã, e o sol rachava as mamonas no telhado. O céu estava num tom de azul tão cintilante, que parecia ter sido pintado com tinta a óleo; as árvores da vizinhança tinham um verde brilhante, combinando com a alegria dos outros. O meu filho ainda dormia, eu coloquei a água de café para ferver, sacudi o Caio, mas ele não quis abrir os olhos. Tirei o seu edredom, disse-lhe que tinha apenas dois minutos para se levantar e fui tomar um banho rápido. Uma das melhores horas do meu dia é a hora do banho, enquanto a água escalpelante cai sobre o meu corpo, faça frio ou calor, o meu pensamento viaja, eu me relaxo e me esqueço um pouco dos problemas. Mas eu não podia relaxar por muito tempo, estava ficando atrasada.  Sai do banho, a água do café já estava em dois terços e o menino ainda estava imóvel na cama. Voltei até a ele e o sacudi como sacudiria um bêbado desmaiado, gritei para que ele se apressasse. Vesti a roupa, fiz o café, engolimos o que era possível e saímos em direção à casa da minha mãe, onde Caio ficava até a hora da escola.

Caio era uma criança de 10 anos, mas tinha uma rotina árdua, quase igual à minha. Ele tinha que acordar cedo e sair correndo, depois voltava tarde para casa. Às vezes eu imaginava como seria a vida dele quando crescesse, se já não estaria velho e cansado antes dos 30 anos, se teria ânimo até lá. Mas, não tínhamos tempo para pensarmos muito.

Quando cheguei ao consultório onde trabalho, a minha chefe já estava lá. O dia seria duro, havia muitos pacientes marcados durante o dia. Eu era a secretária, precisava estar sempre sorridente, simpática e atenciosa, embora o meu humor estivesse péssimo algumas vezes.

O dia transcorreu tranquilamente até a hora do almoço. Andando para o restaurante vi um rapaz com um bouquet imenso de lindas e maravilhosas rosas vermelhas andando pela rua. Eu me lembrei que era dia dos namorados, o meu coração ficou apertado como abraço de mãe saudosa, mas não era uma mãe que estava me apertando, era a solidão. Se eu olhava para um lado, via casais alegres e sorridentes, se olhava para outro, via moças com sacolas de presentes, pelas ruas, os corações e balões nas portas das lojas me lembravam de que eu não tinha um namorado. Malditos comerciantes! Tentei me esquecer da data e fui almoçar, pois o tempo era curto.

Quando estava de volta ao trabalho, uma paciente que já tinha retirado o aparelho e insistiu para recolocá-lo por "pensar" que seus dentes haviam se movimentado, chegou para a consulta. Ela estava muito agitada, não conseguia esperar com calma, mesmo que tudo estivesse sendo pontual até o momento. Depois que foi atendida ela me perguntou qual dia um paciente estaria marcado. Eu não queria dizer, pois não sabia a intenção. Ela veio com uma explicação meio estranha, e por fim disse que ele era namorado dela. Relutante olhei o dia e lhe disse, ela então queria que eu lhe remarcasse para a mesma data, num horário próximo, mas não havia mais nenhum horário disponível e eu não poderia fazer o que ela queria, mesmo se eu quisesse, e eu não queria mesmo. Com muito custo ela entendeu e remarcou para um outro dia, mas sempre agitada. Depois a dentista me disse que ele era ex-namorado dela.

As pessoas ficam loucas de paixão. A mulher inventou que precisava de tratamento, tentou manipular tudo só para arrumar um meio de poder reencontrar o rapaz fingindo que tinha sido por acaso. Uma pessoa dessas é capaz de coisas inimagináveis.

Depois de um dia longo, cheio de coisas vermelhas e cor de rosa passando pela minha frente, olhares lânguidos e abobados, peguei o meu filho e fui para casa. Estava me sentindo tão sozinha, uma solidão que só um amor pode curar, talvez. cozinhei como sempre, ajudei Caio com os deveres, assisti novelas cheias de comemorações do dia dos namorados e chorei escondida. Eu me separei há mais de um ano e nunca mais fiquei com ninguém. Não sei se alguém vai se interessar por uma mulher separada e com filho. Parece que depois que me casei, eu apodreci para o consumo. Parece que rosas nunca farão parte dos meus dias...Estou me sentindo como aquele paciente, desesperada, mas por alguém que nem sei se existe.

terça-feira, 1 de abril de 2014

1 - Maldito dia dos namorados!

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Eu sempre odiei datas comemorativas, elas nos obrigam a agir de uma maneira que agrade a todos, exige que participemos de rituais, que fiquemos felizes e compremos presentes.  Eu também detesto comprar presentes, ainda mais quando não tenho muita intimidade com a pessoa, não sei seus gostos, suas necessidades, seus desejos, ou se algo poderá agradar, irritar ou humilhar. Eu me lembro bem da vez em que  ganhei uma sombrinha no amigo-oculto só por que me viram correndo na chuva, enquanto presentei o meu amigo secreto com um perfume caríssimo que nem eu mesma tinha. São coisas das quais nos arrependemos, mas isso não vem ao caso. O fato é que amanhã será um dia terrível para mim, será o meu primeiro dia dos namorados como separada. Não que os dias dos namorados tenham sido bons, na verdade nunca foram. Eu só tive um dia dos namorados enquanto namorada, e o meu ex marido, que era o namorado,  nem esteve comigo no dia, mandou o enfeite de bichinho pela irmã. Os outros dias dos namorados, nunca comemorei, por que na concepção dele não éramos mais namorados e não precisávamos dessa "palhaçada" criada pelos comerciantes. Nunca comemorei dia de casamento também, e essa foi uma palhaçada criada por nós dois apenas. Eu nunca ganhei um bichinho de pelúcia e nunca ganhei flores, vejam que história mais triste! Mas o pior de tudo, nunca ganhei sequer um abraço de quem eu pensava amar no dia que representaria algo para o nosso amor. 

Amanhã será dia dos namorados e eu estarei mais sozinha do que nunca estive. Não terei o amor que nunca tive, nem o encosto que achava ser amor. Estarei solitária, largada num canto, como um trapo humano; ninguém irá me ligar, ninguém me chamará de fofa, de amor, ninguém dirá que sente a minha falta e demorará para desligar o telefone. As flores continuarão a não chegar, os ursinhos continuarão dentro das lojas, os chocolates não serão comprados. Amanhã, mais do que nunca, a cama estará gelada e os programas na televisão estarão insuportáveis de serem assistidos. Espero que amanhã passe voando e que chegue logo o depois de amanhã, por que há dias em que a solidão é mais solitária, gelada e pontiaguda. Malditos comerciantes!